Poeta da Bahia sugere Salário Mínimo para Políticos Brasileiros | Valdeck Almeida de Jesus

Em tempos de Operação Lava Jato e tantos desdobramentos de investigações, denúncias, delações premiadas, investigações de toda sorte, envolvendo políticos e iniciativa privada, o jornalista e poeta baiano Valdeck Almeida de Jesus lança uma ideia inusitada, irônica, mas que não deixa de ser uma aposta para passar o Brasil a limpo, preservar instituições e favorecer, em primeiro e em todos os planos, as pessoas, o povo, a base que sustenta a nação. É uma espécie de projeto de lei, ou estatuto, como queiram.

O Estatuto do Político Brasileiro propõe, dentre outras medidas, que qualquer político, eleito ou indicado para cargos de ministro, conselheiro e que tais, recebam apenas um salário mínimo mensal, claro, com todos os acréscimos e descontos legais, cumpram oito horas de trabalho de segunda a sexta-feira e, aos sábados, peguem no batente até o meio dia. Além disso, deverão tais autoridades andar de ônibus comum, como todo mundo, comer marmita na hora do almoço, usar o Sistema Único de Saúde etc.

Abaixo, está o texto integral da proposta, que já foi enviada para muitas das autoridades que devem cumprir o estatuto, até agora sem qualquer resposta.

ESTATUTO DO POLÍTICO BRASILEIRO

Dá nova redação a qualquer lei anterior que estabeleça valores de salário, remuneração, subsídio, gratificação, verba parlamentar, ajuda de custo, penduricalho, etc para políticos, nos municípios, estados, União e Distrito Federal. Dispõe sobre alguns direitos dos políticos.

O Congresso Nacional decreta:

Art. 1º. Todo e qualquer político, seja Vereador, Prefeito, Deputado Estadual, Deputado Federal, Governador, Ministro de Estado, Senador e Presidente passa a ter como salário, remuneração, subsídio, gratificação, verba parlamentar, ajuda de custo etc o mesmo valor que um trabalhador comum recebe, ou seja, um salário mínimo nacional, sem qualquer acréscimo. O órgão público a que o político estiver vinculado fará depósito relativo ao Fundo de Garantia por Tempo de Serviço – FGTS, na forma da lei.

§ 1º Do salário serão descontados Vale Transporte, INSS e outras vantagens que forem negociadas.

§ 2º Serão acrescidos, na forma da lei, valores relativos a Salário Família e outras que a lei determinar.

§ 3º Os políticos terão direito a Carta Social – postagem de cinco cartas por mês, ao preço de R$ 0,01 (hum centavo), direito a concorrer à “Minha Casa, Minha Vida”, Bolsa Família, e outras vantagens concedidas a famílias de baixa renda, devidamente comprovados através de certidões, declarações, documentos etc.

§ 4º Os políticos terão direito a um mês de férias a cada doze meses efetivamente trabalhados, com acréscimo de 1/3 do salário mínimo e ao décimo terceiro salário, ao final de cada ano.

§ 5º Os políticos terão direito ao Salário Família, calculado na forma da legislação em vigor.

§ 6º Os políticos não podem fazer leis ou regulamentos que beneficiem a si, parentes ou a amigos.

§ 7º Os políticos serão avaliados pela produção de leis, regras, regulamentos, debates em prol do país, e terão descontados do salário valores a serem estipulados em lei complementar se houver qualquer discussão inócua, debate de assuntos sem importância e propositura de leis que piorem a situação dos brasileiros.

Art. 2º. Nenhum político terá carro oficial nem despesas de transporte paga com dinheiro público.

Paráfrafo Único – A segurança privada de políticos está terminantemente proibida. Todos os políticos terão a proteção da polícia, igual aos demais cidadãos.

Art. 3º. Nenhum político terá qualquer ajuda de custo, seja moradia, correio, viagens de avião ou de qualquer outro meio de transporte, ajuda para gabinete, funcionário, comida, paletó etc.

Art. 4º. Nenhum político terá foro privilegiado, ou seja, não serão julgados pelos Tribunais Superiores. Qualquer crime cometido será investigado pelas polícias militar e civil, e serão presos nas delegacias públicas e presídios comuns, sem direito a cela especial.

Art. 5º. Nenhum político poderá viajar para o exterior, pois seus salários não serão suficientes para este tipo de viagem.

Art. 6º. Nenhum político poderá comer em restaurantes de luxo. Cada um terá que levar para o trabalho sua marmita, quentinha, marmitex ou similar.

Art. 7º. Nenhum político poderá usar serviço de saúde ou plano de saúde particular, devido ao alto custo. Cada um receberá o Cartão Cidadão, para utilizar os serviços do Sistema Único de Saúde – SUS. Em caso de tratamentos ou cirurgias de alto custo, deverão entrar na fila de regulação ou, caso sejam recusados, têm o direito de entrar na justiça para pedir liminares. Estão proibidos de usar taxi, uber ou outros serviços especiais de transporte.

Art. 8º. Nenhum político poderá utilizar avião nem veículos de luxo. Eles deverão usar os ônibus comuns, e para isso receberão vale transporte que será descontado do salário mensal.

Art. 9. Nenhum político poderá trabalhar menos que um trabalhador comum, ou seja, deverão bater ponto às 8hs, terão intervalo para comer a quentinha às 12hs, descansarão um pouco e voltarão ao batente às 14hs, devendo sair do serviço às 18hs. Não terão direito a hora extra, portanto, não podem permanecer no recinto após o expediente.

Parágrafo Único – Todos os políticos terão obrigação de trabalharem de segunda a sexta-feira, nos horários já citados, e aos sábados até o meio dia, descansando aos domingos.

Art. 10º. Todos os políticos serão revistados na entrada e na saída do trabalho, nos moldes das leis vigentes, como acontece com trabalhadores comuns.

Art. 11º. Todos os políticos deverão sofrer baculejo nos ônibus, como os demais cidadãos brasileiros, durante blitzes das polícias.

Art. 12º. Todo político deverá passar pelas mesmas situações que pessoas comuns nas abordagens policiais de rotina.

Art. 13º. Todos os políticos devem matricular seus filhos em escolas públicas, sem qualquer privilégio.

Parágrafo Único – Qualquer tentativa de matricular filhos e/ou dependentes em escolas particulares, escolas de idioma, viagens de intercâmbio cultural ou similares, será severamente investigada e punida, na forma da lei.

Art. 14º. Todos os políticos devem morar em residências comuns, pois seus salários não serão suficientes para residir em condomínio de luxo, hotéis, mansões, paraísos, ilhas particulares etc.

Art. 15º. Todos os políticos que tiverem doenças graves, crônicas e incuráveis terão direito a receber remédio de graça nas farmácias populares, como os cidadãos de bem da nação.

Art. 16º. Todos os políticos terão direito à aposentadoria digna, de um salário mínimo mensal, após 49 (quarenta e nove) anos de contribuição ininterrupta, ao completarem 65 (sessenta e cinco anos de vida). Aqueles que conseguirem comprovar as contribuições receberão 51% do salário mínimo, mais 1% por cada ano de contribuição, sendo vedada qualquer aposentadoria que ultrapasse o salário mínimo.

Parágrafo Único – Aos políticos fica vedado contribuir para Previdência Privada ou qualquer tipo de investimento similar, devido ao seu salário ser o mínimo e não sobrar para despesas desnecessárias. Qualquer tentativa de ingresso em planos de previdência que não seja o oficial será investigada e punida.

Art. 17º. Aos políticos é vedado receber e/ou pagar vantagens, em dinheiro ou bens, materiais ou serviços, em qualquer época, nas campanhas, nas eleições ou no exercício do mandato, sob pena de prisão e perda do direito ao salário e à aposentadoria, bem como devolver aos cofres públicos, com juros e correção, todos os valores recebidos a título de salário ou aposentadoria.

Art. 18º. Aos políticos é vedado ter acesso a horário gratuito em qualquer meio de comunicação, mesmo via internet ou redes sociais, para fazer campanha ou propaganda de suas realizações. A campanha deverá ser feita de porta em porta, sem alarde, sem colagem de cartazes ou banners, sem atrapalhar o sono e sossego da população, sem troca de favores, promessas de favorecimento etc.

Art. 19º. Os direitos e deveres não previstos neste estatuto serão analisados por uma comissão, sem prazo para conclusão.

Art. 20º. Esta lei entra em vigor na data da sua publicação.

Sala das Sessões, 1º de abril de 2017

Valdeck Almeida de Jesus
– poeta, jornalista, blogueiro e escritor.
[email protected]
71 99345 5255

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Em busca das raízes no Brasil profundo | Nicodemos Sena | Adelto Gonçalves

O homem, através dos tempos, sempre sonhou com o retorno às suas raízes, ou seja, à terra de seus pais e avós ou mesmo ao local onde nasceu e de onde saiu para ganhar o mundo. Talvez tenha sido assim desde a Antiguidade, como se pode ler em A Odisseia, grande obra clássica e épica do poeta grego Homero (século VIII a.C.), que conta a história de Ulisses (Odisseu), rei de Ítaca, ilha supostamente localizada no mar Jônico, que seria casado com Penélope e tinha um filho, Telêmaco.

Quando Páris, príncipe troiano, raptou Helena, a mulher mais bela do mundo e esposa de Menelau, rei de Esparta, preparou-se uma expedição contra Troia, na qual Ulisses tomou parte ativa. Durante os dez anos do cerco a Troia, Ulisses teve um papel decisivo. Depois, com as feridas cicatrizadas, levou mais dez anos para retornar a sua Ítaca, onde estavam suas raízes, a pátria de seus sonhos. Mas o importante da história não é o seu retorno, mas a longa e sobressaltada viagem que fez para voltar para casa.

Com isso, parece que Homero queria dizer que todo homem sempre sonha com o seu retorno às raízes, o eterno retorno, de que dizia o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Se tudo retorna eternamente, o futuro já é um passado; e o presente é tão passado quanto o futuro, dizia o filósofo. Em Assim Falou Zaratustra (1883-85), Nietzsche retoma a ideia do devir formulada por Heráclito (535a.C-475a.
C), segundo a qual tudo flui, tudo muda, tudo passa e tudo retorna, girando assim a roda deste mundo.

Em A insustentável leveza do ser, Milan Kundera conta que, certa vez, ao folhear um livro sobre Adolf Hitler (1889-1945), emocionou-se com algumas fotos do ditador, pois lhe lembravam o tempo de sua infância. “Essa reconciliação com Hitler trai a profunda perversão moral inerente a um mundo fundado essencialmente sobre a inexistência do retorno, pois nesse mundo tudo é perdoado por antecipação e tudo é, portanto, cinicamente permitido”, escreveu.

Já o filósofo romeno Mircea Eliade (1907-1986), em O mito do eterno retorno, lembra que este mito existe em todas as religiões, pois reconstitui a passagem do tempo, o percurso entre o começo e o fim, a vida e a morte. Para Eliade, ao narrar um mito, reatualizamos, de certa forma, o tempo sagrado no qual se sucederam os acontecimentos de que falamos, como diz em Imagens e símbolos (1961) É esse tempo sagrado que nos ficou na memória que, de certo modo, todo homem procura reconstruir, ao buscar suas raízes.

Foi, aliás, o que este crítico procurou fazer em janeiro de 1990, quase quarentão, depois de entrevistar o escritor catalão Eduardo Mendoza, em Barcelona, para um trabalho de mestrado na Universidade de São Paulo (USP), ao viajar de trem até Vigo, na Galiza, e de lá de caminhoneta rumo ao Porto, para no dia seguinte buscar na freguesia de Carvalhosa, comarca de Paços de Ferreira, no Norte de Portugal, o lugar de Peias e possíveis vestígios da sua família paterna, 60 anos depois que seu pai largara aquela terra para nunca mais vê-la. Levado por um parente compungido, conhecido no local e na hora, porém, o que encontrou foram só os retratos dos avós numa lápide do cemitério do vilarejo, imagens que já trazia na lembranç ;a, pois eram as mesmas fotografias que costumava ver nas mãos do pai, que perdera aos 14 anos de idade.

De certo modo, é o relato de viagem semelhante, ao interior de si mesmo e, portanto, de volta às raízes, o que o leitor vai encontrar em Choro por Ti, Belterra!, narrativa de Nicodemos Sena, publicado originalmente como folhetim em 2014 no jornal O Estado do Tapajós, de Santarém do Pará, na Amazônia brasileira, cidade natal do escritor. A diferença é que Nicodemos Sena teve a oportunidade (e a felicidade) de, cinquentão, em 2014, levar o pai Bernardino Sena, então com 78 anos de idade, para ver o que restara, mais de seis décadas depois, do lugar em que vivera “cinco inesquecíveis anos de sua vida juvenil”.

Em 19 episódios, Nicodemos Sena reconstitui o dia em que fez essa viagem de retorno às origens em companhia de seu pai, depois de um percurso de algumas horas pela rodovia Santarém-Cuiabá, até entrar numa estradinha de terra que leva à Estrada Um e, enfim, às ruínas da cidadezinha de Belterra, que na década de 1940 fora dirigida pela Ford Motor Company, empresa do magnata norte-americano Henry Ford (1863-1947), que, em plena Segunda Guerra Mundial (1939-1945), tentaria fazer da extração da borracha uma atividade lucrativa, fornecendo os pneumáticos necessários para movimentar os veículos militares.

Não se pode dizer que se trata de um romance nem tampouco de um conto que se tenha derramado por causa de uma prosa poética. Não é também uma simples reportagem, pois não constitui a mera literalização dos acontecimentos de um dia na estrada. Neste caso, cada encontro no caminho com esporádicos moradores perdidos naquelas paragens do Brasil profundo serve como motivo para um ou mais comentários, como aquele episódio em que o cronista depara-se, em meio ao tórrido calor do meio-dia amazônico, dentro de um casebre em que não havia água encanada e muito menos tratada, com uma menina que não parava de manipular a tela de um telefone celular.

É, isso sim, um texto híbrido que se assume como uma crônica repassada de lirismo, uma narração das vicissitudes vividas pelo narrador em companhia do pai, que faz, com a ajuda do filho, uma viagem de retorno à infância para reencontrar todos os fantasmas que ainda assolam seus pensamentos.

Ou ainda uma narrativa poética que, ao reunir musicalidade e metaforização, faz com que o narrador desfie o novelo da memória, em tom de conversa com o leitor em que não dispensa nem mesmo citações de autores, como o português Fernando Pessoa (1888-1935), o colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014), o mexicano Juan Rulfo (1917-1986) e o norte-americano William Faulkner (1897-1962). Como se sabe, o que une esses autores de nacionalidades tão distintas é a construção metafórica de um lugar mítico, que existe só na alma do próprio autor, como “o rio da minha aldeia” do heterônimo pessoano Alberto Caeiro. Em resumo, o texto dialoga com o mito do eterno retorno, ao praticar a intertextualidade com discursos canônicos, reconstruindo, dessa forma, metáforas da precária condição humana.

Autor de livros que já se tornaram referências obrigatórias dentro da Literatura Brasileira, como os romances A espera do nunca mais (1999), A noite é dos pássaros (2003) e A mulher, o homem e o cão (2009), trilogia que constitui uma saga amazônica, Nicodemos Sena mostra em Choro por ti, Belterra! que pode ser também considerado um cronista da estirpe de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Rubem Braga (1913-1990) ou Fernando Sabino (1923-2004).

A diferença é que, em vez da fugacidade dos registros do cotidiano das ruas do Rio de Janeiro que se leem nas crônicas daqueles grandes mestres, o que o leitor descobrirá nestes episódios é não só Amazônia que é vista ainda como exuberante paraíso tropical, mas também aquela que governantes corruptos permitiram que continuasse a ser destruída, tomada por aventureiros “gananciosos e cruéis, os quais, sem escrúpulos, saqueiam e depredam os bens da terra, auxiliados por ‘mucamas’ e ‘mordomos’ (degenerados filhos da terra) que, a troco de migalhas e posições, passaram-se para o lado dos inimigos”.

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(*) Apresentação escrita especialmente para o livro Choro por ti, Belterra! (págs. 7/11).

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Choro por ti, Belterra!, de Nicodemos Sena, com apresentação de Adelto Gonçalves. Taubaté-SP: Editora LetraSelvagem, 192 páginas, R$ 30,00, 2017. E-mail: [email protected] Site: www.letraselvagem.com.br

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(**) Adelto Gonçalves, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), e Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), entre outros.

‘Ladeira do Tempo-Foi’ | um romance machadiano | Adelto Gonçalves

I

É como se Machado de Assis (1839-1908) tivesse vivido mais meio século e tido a oportunidade de passar os seus derradeiros anos no tradicional bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro da década de 1950, recolhendo material e passando para o papel o que vira e sentira em meio aos seus moradores. É assim que se haverá de sentir o leitor ao acabar de ler o romance Ladeira do Tempo-Foi (Rio de Janeiro, Synergia Editora, 2017), do arquiteto e professor Helio Brasil, sua segunda experiência no gênero.

Obviamente, este já é outro Rio de Janeiro que se percebe neste livro, se comparado aos romances machadianos, mas a alma das ruas é a mesma, bem como os seus logradouros, praças, calçadas, ladeiras, portões, sobradões, janelas, esquinas, quartéis, mercearias, armarinhos, botequins, igrejas e escolas. Até porque quem o descreve é um carioca de quatro costados, nascido e vivido em São Cristóvão, autor de outro livro que igualmente resgata o bairro, São Cristóvão – memória e esperança (Rio de Janeiro, Prefeitura do Rio de Janeiro/Editora Relume Dumará, 2004), que viria a ser reeditado em 2016 pela Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado do Rio de Janeiro (Faperj) na obra coletiva Cantos d o Rio – imagens literárias de bairros e localidades cariocas, volume que reúne 13 textos.

E que, em sua primeira experiência no romance, A última adolescência (Rio de Janeiro, Editora Bom Texto, 2004), já havia explorado a mesma paisagem de São Cristóvão, a exemplo do que faria em vários contos. Para ele, São Cristóvão é metaforicamente um território pessoal de vivências ou “uma bela e colorida amostragem do brasileirismo e do carioquismo”, como diz na dedicatória. Em outras palavras: Ladeira do Tempo-Foi constitui uma bem sucedida, onírica e proustiana busca de um tempo perdido na memória do autor.

Sem contar que o seu saboroso estilo é indisfarçavelmente inspirado no texto machadiano, ainda que adaptado aos nossos dias. Enfim, trata-se de “uma viagem ao mundo carioca e brasileiro dos meados do século XX, conduzida com vigor narrativo neste romance que surpreende a cada passo”, como bem observa Gustavo Barbosa, escritor, professor, consultor editorial, consultor de comunicação, editor e produtor de conteúdo multimídia, no texto de apresentação que escreveu para este livro.

II

Num cenário que lhe é extremamente familiar, o romancista cria (ou transporta personagens reais para a ficção?) uma ampla galeria de personagens – imigrantes portugueses e espanhóis, professores, comerciantes, senhorios, burocratas, donas de casa, prostitutas, policiais, malandros, boêmios, pobres, ricos e remediados, brancos, gringos e portugas, pretos e mulatos, trabalhadores braçais, funcionários e doutores e outros tipos típicos das ruas cariocas daquele tempo, por onde ainda se podia andar sem medo de ser surpreendido por uma bala perdida.

É nesse ambiente que o leitor vai acompanhar a vida do professor Carlos Jordão, morador na Ladeira do Tempo-Foi, ao pé do morro, leitor assíduo de estudiosos como Anísio Teixeira (1900-1971) e Gilberto Freyre (1900-1987), casado com Leonor, de família açoriana chegada havia pouco ao Brasil, mãe de seu filho recém-nascido Felipe e moça “esculpida pela educação camponesa, mas não rústica”. Viviam num sobrado, vizinhos de outras famílias, mas alimentavam o sonho de abrir uma conta na caixa econômica para fazer um pé-de-meia e comprar uma casa, para escapar daquela vizinhança de gente pobre.

A vida familiar vai bem até que, um dia, chegam num caminhão de mudanças os rústicos e poucos móveis de uma vizinha, Idália, jovem pobre, ex-operária da fábrica de tecidos de Bangu, que traz apenas o seu filho, Lula, menino doente, deficiente mental. E vai morar no porão do velho sobrado. Acontece que a morena Idália é também uma mulher de formas exuberantes, que atrai o olhar dos homens nas ruas por onde passa. E o seu cheiro feminino começa a inebriar também o jovem professor.

Nasce, então, um romance às escondidas entre o professor e a morena, que não é interrompido nem mesmo quando a mulher é despejada do porão do sobrado por falta de pagamento do aluguel. Sem alternativa, ela vai viver num sobrado da Rua Riachuelo, perto da Lapa, que fora transformado em rendez-vous.

Idália vira prostituta, mas continua a receber entre os seus clientes o jovem professor, embora fosse perseguida por seu antigo amante, o rufião Ranulfo. A vida familiar do professor é, então, abalada por uma denúncia anônima que vem num papel mal escrito e faz a açoriana largar a casa, levando consigo o filho Felipe. O lar burguês só seria refeito quando ocorre a tragédia que marca o romance: Idália e o filho doente, um dia, seriam mortos a facadas pelo malandro Ranulfo.

III

Se o Rio de Janeiro – e, por extensão, o Brasil – e o contexto em que se passa o romance já não são aqueles das obras de Machado de Assis, ainda havia na sociedade brasileira da década de 1950 os sinais do clientelismo e do patriarcalismo que, ao lado da escravidão, constituíam as formas sociais que dominavam o País à época machadiana. Os conflitos de classe seriam, praticamente, os mesmos e o professor Jordão, ainda que não fosse alguém que pudesse ser visto como uma pessoa bem posta na vida, não poderia assumir publicamente o seu relacionamento com a lasciva mulata Idália.

Outro personagem que parece saído de um romance machadiano – mas, quem sabe, seja antes o protótipo do brasileiro médio – é o professor José Lírio, colega de Jordão na escola municipal do bairro, o Ginásio Santa Cordélia, onze anos mais velho, casado, mas que mantém um romance igualmente clandestino com uma aluna, Ana Luíza, 17 anos declarados, mas que, na verdade, seria uma adolescente de apenas 15 anos.

Empregado também num ministério da República, Lírio transitava com certa facilidade nos corredores da política no Distrito Federal. E, com o retorno de Getúlio Vargas (1882-1954) ao poder, agora por meio de eleições livres, e a entrada no Ministério da Educação de Simões Filho (1886-1957), respeitado intelectual, via a oportunidade de cavar para si e para o colega de trabalho no Santa Cordélia uma colocação no grupo que haveria de preparar um livro encomiástico sobre a trajetória de Vargas. Um seria assessor do outro.

Como se vê, a exemplo de Machado de Assis, a visão que Helio Brasil tem de seus personagens não é sentimental, mas realista. Ao mesmo tempo, não se pode deixar de reconhecer no autor um tom saudosista do tempo que ele mesmo viveu no bairro de São Cristóvão. Tudo isso faz deste livro um dos lançamentos mais auspiciosos da Literatura Brasileira neste começo de século XXI.

IV

Helio Brasil (1931), nascido no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, é formado em 1955 pela Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Foi funcionário do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE, hoje BNDES), entre 1955 e 1984, tendo realizado projetos para as instalações da instituição. Projetou edifícios comerciais, industriais e residenciais no Rio de Janeiro e em outros Estados. Foi professor da disciplina Projeto de Arquitetura, durante vinte anos, na Universidade Santa Úrsula, na UFRJ e na Universidade Federal Fluminense (UFF).

É autor de São Cristóvão – memória e esperança; O anjo de bronze e outros contos (Rio de Janeiro, Oficina do Livro, 1994); A última adolescência; Tempos de Nassau: um príncipe em Pernambuco, ficções, com vários autores (Rio de Janeiro, Bom Texto, 2004); Cadernos (quase) esquecidos (crônicas autobiográficas, edição de autor) e Pentagrama acidental (novelas, Editora Ponteio, 2014). É co-autor com Nireu Cavalcanti de O Tesouro – O Palácio da Fazenda, da Era Vargas aos 450 anos do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro, Pébola Casa Editorial, 2015) e com José Rezende Reis de O Solar da Fazenda do Rochedo e Cataguases (memórias, Synergia Editora, 2016), em segunda edição. Participou ainda de coletâneas de contos das editoras Uapê, Bom Texto e 7Letras.

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Ladeira do Tempo-Foi, de Helio Brasil, com texto de apresentação de Gustavo Barbosa. Rio de Janeiro: Synergia Editora, 220 págs., R$ 40,00, 2017. Site: www.synergiaeditora.com.br

E-mail: [email protected]

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(*) Adelto Gonçalves é mestre em Língua e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015), Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), e Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), entr e outros. E-mail: [email protected]

Centro Lusófono russo traduz | contos de 32 autores brasileiros | Prof. Vadim Kopyl

SÃO PETERSBURGO – Os professores-tradutores do Centro Lusófono Camões, da Universidade Estatal Pedagógica Hertzen, de São Petersburgo, já traduziram contos de 32 autores brasileiros contemporâneos que vão figurar em edição impressa russo-portuguesa a ser publicada pela instituição com o apoio da Embaixada do Brasil em Moscou.

Segundo o diretor do Centro Lusófono Camões, professor Vadim Kopyl, responsável pela publicação, a edição será dedicada à memória de Dário Moreira de Castro Alves (1927-2010), ex-embaixador do Brasil em Portugal (1979-1983), e do padre Joaquim António de Aguiar (1914-2004), fundador e diretor do Colégio Universitário Pio XII, de Lisboa, e presidente da Academia Internacional da Cultura Portuguesa, considerado co-fundador da instituição.

Castro Alves exerceu postos na Embaixada do Brasil em Moscou e foi chefe de gabinete no Ministério das Relações Exteriores e presidente do Conselho Permanente da Organização de Estados Americanos (OEA), em Washington. Sócio-honorário do Centro Lusófono Camões, traduziu o romance em versos Eugênio Oneguin, de Alexandr Pushkin (1799-1837), publicado em 2008 pelo Grupo Editorial Azbooka-Atticus, de Moscou, em edição russo-portuguesa, e pela Editora Record, do Rio de Janeiro, em 2010.

Em 2006, com o apoio da Embaixada do Brasil em Moscou, o Centro Lusófono Camões publicou o livro Contos e, em 2007, Contos Escolhidos, ambos de Machado de Assis (1839-1908), em edição russo-portuguesa, com prefácios de Adelto Gonçalves, doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) e autor das biografias Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999) e Bocage: o Perfil Perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003).

Desde a sua fundação em 1999, o Centro publicou também em edições bilíngues os livros Guia de Conversação Russo-Portuguesa Contemporânea, Poesia Portuguesa Contemporânea (2004), que reúne poemas de 26 poetas portugueses, e Vou-me embora de mim (2007), do poeta português Joaquim Pessoa. Em 2013, a Embaixada do Brasil em Moscou apoiou a publicação da segunda edição revista do livro Contos Escolhidos, de Machado de Assis.

O Centro Lusófono Camões, que hoje abriga 18 estudantes russos que estudam a Língua Portuguesa, mantém uma biblioteca com mais de dois mil livros editados no Brasil e em Portugal. As instituições e autores do mundo lusófono que quiserem enriquecer o acervo do Centro devem enviar os seus livros para:

Prof. Vadim Kopyl

CENTRO LUSÓFONO CAMÕES

Moica 48 – UNIVERSIDADE ESTATAL PEDAGÓGICA HERTZEN k. 14

São Petersburgo – Rússia

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Legenda da foto:

Reunião da direção do Centro Lusófono Camões na Universidade Hertzen, em 2003: o embaixador Dário Moreira de Castro Alves (ao centro) entre o professor Vadim Kopyl, diretor, e a professora Helena Golubeva, vice-diretora

ÁGUAS DO MEU BATISMO | Ernane Catroli

As cores da manhã e o ruído crescente das ondas na areia. Baixa temporada agora. Seguia pela aleia de cascalho que levava ao casarão de dois andares. Pensão do Farol. Ao abrir a porta, Dona Jovita, o semblante rijo. Mais magra. Cabelos ralos.
Mas é Milena quem emerge do ambiente. Muitas vezes. Milhares de vezes.
Toda a nossa louca juventude e aquela gravidez atropelando os dias.
– Faremos, então, o combinado.
***
O lado do quarto onde permaneço mudo e a voz imperativa de dona Jovita. Milena deitada na cama de solteiro. Os olhos aumentados.
Sobre o criado mudo, a infusão de ervas para ser ingerida aos poucos, conforme recomendação. A pequena maleta aberta sob a luz do abajur.
O início. O meio.
A noite antiga. Azul.
Ouvia-se o mar.

Nome: Ernane Catroli é mineiro (Sant’Anna de Cataguases). Há muitos anos reside no Rio de Janeiro. Publica em alguns blogs dedicados à cultura.
ernane

Caminho das pedras | Domingos da Mota

O chão que pisas, chão de terra
Dura, saibro, seixos, pedras, erva
Seca, tojo e urtigas,
E a secura das pernas
A correr Ceca e Meca,
E as pegadas visíveis dos sapatos
E o rasto das sandálias e dos pés
E os espinhos dos cactos e dos cardos:

E se um veio da fonte de Castália
Transvazasse da nascente de água
Pura e jorrasse entre as dunas
Do deserto, oásis no meio da secura,
Da aridez de quem trilha ou chega perto
Do caminho das pedras e calhaus –
Farto de serpentes
E lacraus?

Domingos da Mota

[inédito]

TEAR | Soledade Martinho Costa

Sobre o corpo das areias
Pelas marés
Lavadas
As pedras
Na solidão dos passos
Gravam
Indecifráveis sulcos.

Rente
Perpassa
Sobre si dobrado
O horizonte
Aspirando à falésia
Aromas de cicuta.

Tinge-o
Do sepulcro das algas
O manto verde e adivinho
Fino de gume
Corpo de cisne
Ao Sol sacrificado.

Sem trono
Ceptro
Nem grinaldas
Vem e escuta:

Nas grutas
Buriladas
Nas arribas
É que se tece
O silêncio
Como o linho.

Soledade Martinho Costa

Do livro «Do Sol e da Cal»

Editorial Presença

Femme | auteur inconnu , texte qui traîne sur le net | Mur de Fadette Aiache

Femme, j’ai tant de choses à te dire,
Qu’il me faudrait un livre pour l’écrire.
Une vie ne suffit pas, et encore plus de temps,
Car tu portes en toi tout ce que je ressens.
Femme tendresse, femme douceur,
Femme tempête, femme douleur,
Il me faudrait tout le dictionnaire
Pour parler de toi, en rimes et en vers.
.
Tu es le commencement et la fin.
Tu es l’aboutissement, soir et matin.
Tu es l’émotion, la finesse, la vie.
Tu es tout ce que je ne suis pas, je t’envie.
Tu es l’avenir de l’humanité,
Car tu portes en toi l’éternité.
.
Femme d’amour, tu donnes la vie.
Femme de cœur, tu donnes l’amour.
Femme sensible, fragile, forte,
J’attends tout de toi, ouvres-moi ta porte.
Fais-moi une place dans ton cœur.
Offre-moi tout de toi et plus encore.
Femme battue, maltraitée,
.
Femme outragée, mal aimée,
J’aimerais tant te protéger,
Pour pouvoir tout te donner.
Femme courage, tu es admirable.
Femme aimable, tu es remarquable.
.
Tu es, parfois, imprévisible, charmante,
Tellement troublante, émouvante.
Femme au regard si doux, si profond,
Je me plonge dans tes yeux jusqu’au fond,
Recherchant l’insondable, l’innommable.
S’il t’arrive de pleurer, je me sens minable.
Femme, ces colères que je redoute
Lorsque tes yeux lancent des éclairs,
.
J’apprécie pourtant, lorsque tu doutes,
Ton émotion, quoi qu’il t’en coute.
Femme, du fond de ma solitude,
J’ai besoin de ta sollicitude,
.
De ta douceur, de tes caresses,
De ton affection et de ta tendresse.
Femme heureuse, complice de mes bonheurs,
Femme amoureuse, tu supportes mes humeurs.
Et lorsque surviennent orage et malheur,
Tu gémis, tu souffres… pire tu pleures.
.
Femme tu me désarmes,
Alors je rends les armes.
Sans toi je l’avoue, je ne suis rien.
Tu le sais, de toi j’ai tant besoin.
Dis-moi encore qui es-tu ?
( auteur inconnu , texte qui traîne sur le net)

Récupéré du Facebook | Mur de Fadette Aiache

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Um romance de viés histórico de Adelto Gonçalves | Wil Prado

            Um dos mais representativos e importantes romances do “jornalismo literário” no País — premiado e com grande repercussão na época do lançamento, mas há anos esgotado nas livrarias—, Os Vira-Latas da Madrugada retorna em segunda edição com ilustrações e um belo acabamento gráfico.  E podemos constatar que, infelizmente, essa lacuna de tempo não desatualizou o seu cenário e enredo: mais de três décadas depois ainda deambulam pelas praças, ruas e cais das nossas grandes metrópoles os mesmos vira-latas que Adelto Gonçalves, autor do livro, com refinada sensibilidade e aguda observaç ;ão, pinçou da realidade e os colocou em movimento nas densas páginas que iriam emocionar toda uma geração.

            Mas, para que os leitores possam se situar e compreender o drama, é importante que falemos um pouco sobre o seu contexto geográfico e social.  E, naturalmente, sobre o seu autor, que viu de perto e até podemos dizer que sentiu na pele tudo que narrou.

            O romance se desenrola no bairro Paquetá, mais precisamente no cais e nas zonas de prostituição do Centro de Santos, onde hotéis, boates e cabarés exibem pomposos nomes de cidades e países europeus, como Old KopenhagenSweden e Oslo Bar, talvez para atrair os marítimos estrangeiros aportados. Área pobre e decadente, habitada na sua maioria por operários, comerciários e demais classes economicamente menos favorecidas, e ainda atraindo todos os deserdados do entorno, “mendigos, engraxates, prostitutas e jovens aprendizes de todo tipo de sobrevivência”, a região portuária, palco de grandes embates sindicais, promovidas pelo depo sto governo Jango e, com o desfecho do golpe militar, seria, consequentemente, uma das regiões mais visadas pelo novo regime, com a caça e prisões desses elementos. E muitos comporiam o elenco do romance. Contudo, não se comprometeu. Seu compromisso não é com partidos políticos ou com ideologias. Seu compromisso maior é com a condição humana. E somente.

            Através dos dados bibliográficos, sabemos que Adelto bebeu direto da fonte, e não através de relatos de terceiros. Ele não apenas ouviu falar ou leu sobre o que narrou. Não, não foi um mero expectador dos acontecimentos: testemunhou tudo “in loco”, entre o espanto e a indignação. Em artigo de jornal intitulado “O golpe visto da janela da minha casa”, escrito décadas depois, ele contaria que, com 12 anos de idade, presenciaria um dos episódios mais importantes e dramáticos, pois morava de frente  para o prédio do Sindicato dos Operários Portuários de Santos.  Menino, sem entender direito o que estava se pas sando, ele assistiria, atônito, aos soldados de fardas azuis da Polícia Marítima cercarem o sindicato, enquanto seus membros, acuados, apenas espiavam lá de dentro, esperando uma contrarreação que nunca viria.

            De repente, muitos gritos e a fumaça — talvez de uma bomba incendiária jogada lá dentro — subiu no ar. Minutos depois os soldados invadiriam o prédio, e os líderes sindicais, rendidos, deixariam as instalações em fila indiana, hostilizados por tapas e insultos de “comunistas de merda!”.  E, aqueles homens que decidiam os rumos da classe, tratados agora como meros bandidos, teriam que passar por um “corredor polonês”, esbofeteados até entrarem nas viaturas que os levaria direto para o navio-prisão atracado ali no estuário.

            Revoltado com o que via da janela, e, sobretudo, por conhecer alguns daqueles homens que estavam sendo espancados — ele estudava em escola mantida pelo Sindicato dos Operários Portuários de Santos —, como se não acreditasse no que estava vendo, sairia de casa para conferir de perto. Talvez por isso, anos depois, narraria esses episódios com tanta verve e propriedade, com cenas e imagens tão fortes como essa que não resistimos em reproduzir: “No cais, os homens agora trabalhavam em silêncio e ninguém mais levantava a voz para reclamar algo. Aceitavam tudo passivamente: como uma forca no centro da praça principal de uma pequena cidade, aquele navio estava ali no mei o do estuário a lembrar aos mais afoitos e aos incrédulos que os tempos haviam mudado”.

             Na esteira de grandes autores humanistas, via Vitor Hugo, Dostoievsky, Dickens e— por que não? — o próprio Jorge Amado, como eles Adelto deixa vazar em cada página sua grande compaixão pelos excluídos, esses seres em carne e osso, dores e dúvidas, que arrastam suas misérias e paixões pelas ruas, beco e puteiros, sempre em busca de uma resposta para suas dores físicas e espirituais. A cada página é como se o autor suasse, sofresse e chorasse junto, acompanhando as desditas de cada um dos seus personagens. Como se arrancasse o asséptico leitor da sua cômoda cadeira e o arrastasse até o sujo — de lodo, fumaça e ó leo  — cais, e o fizesse sentir no lombo a brisa gélida do mar, o cheiro da maresia, o suor, a inhaca de cada personagem — estivadores, sindicalista, cafetinas, putas ou meros vagabundos —,  toda essa gama dos malditos viradores de madrugadas.

            No meio da arraia-miúda, no entanto, um vulto se destaca pela sua coragem e lucidez: é Marambaia, um marítimo que, sempre reivindicando direitos e melhores condições de trabalho, liderou no seu passado heróico doze motins, e agora, aposentado, ainda frequenta o Sindicato dos Portuários.  E mesmo como contraventor (apontador de jogo do bicho) é admirado e respeitado por colegas e vizinhos, tornando-se uma espécie de conselheiro na região. Contudo, numa roda de amigos, ao comentarem o destino dessa última geração, constatavam que todos viviam de subempregos, quando não, resvalando para a contravenção.  Só Cariri, que virou jogador de futebol profissional, conseguira vencer. Então, entre a galhofa e a indignação, Marambaia desabafa: “Êta país de merda! Pobre pra subir na vida só sendo jogador de futebol…” Poderíamos hoje acrescentar que, com a inversão de valores da mídia mistificadora, alguns falsos artistas e cantores sertanejos também aí poderiam ser incluídos como vitoriosos. O que, claro, em nada contribuiria para a melhoria dos nossos dias.

UM PRECUSOR NA DENÚNCIA AO REGIME MILITAR

            Senão por tantas outras virtudes, o livro já teria o seu lugar ao sol pelo simples fato de ter sido, talvez, o primeiro romance-denúncia contra a ditadura militar, numa época em que todos nós ainda guardávamos, cuidadosos, certo distanciamento crítico, para abordar tão polémico tema. Adelto, estudante de vinte e poucos anos, não deu bolas para a voz da prudência e, tocado pela indignação e a intrepidez da juventude — talvez duas das maiores virtudes dessa bela fase da vida —, saiu na frente! Mas não fez panfletagem, como se poderia perfeitamente esperar de um jovem açodado e inexperiente. Esqueceu a pouca idade e fez romance de gente grande.

            Tomou, sim, o lado dos mais fracos, os deserdados, segundo as suas convicções, mas sem pregação político-partidária. O que, contudo, não evitou que alguém o taxasse de maniqueísta: colocando sempre os oprimidos como bons e os opressores como maus. Amado, Dostoievski e Zola também receberam tal pecha e isso em nada diminuiu o valor das suas obras. Homem de origem humilde (filho de pequeno comerciante), é perfeitamente natural, a nosso ver, a sua simpatia pelos “humilhados e ofendidos”, para usar uma expressão do grande mestre russo já citado a cima.

            Ainda que não se pretenda um romance histórico — não se prende a datas nem fatos sequenciais —, de certa forma, não deixa de sê-lo, na medida em que retrata episódios reais da História recente do País e, enlouquecendo a cronologia, nos remete a um passado remoto, como as andanças da lendária Coluna Prestes, na qual Marambaia, que podemos considerar o protagonista do romance, teria militado; atravessa o governo Vargas, com as perseguições políticas do Estado Novo, onde o protagonista também amargaria detenções; passando pelo governo de João Goulart, e entrando pelos primeiros anos da ditadura militar de 64.

 MAS NEM TUDO SÃO FLORES

            Para não dizer que tudo são flores, faremos aqui duas restrições. A primeira diz respeito aos parágrafos iniciais da segunda parte do livro, denominada “Segunda confissão”. O autor tenta fazer um levantamento histórico sobre a origem do nome Paquetá. E esse relato frio e pedagógico, tão fracionado, diferente do clima denso e fluido do livro, soa como um apêndice. Podia ser perfeitamente evitado.  Felizmente, ele pouco se estende, reconhecendo que é tarefa para um historiador, e não para um romancista. E o romance retoma seu inquieto e intenso fluxo.

     Segunda restrição. Pareceu-nos que, vez por outra, o autor põe na boca e na mente dos seus personagens palavras e reflexões não totalmente condizentes com, digamos, seu nível cultural. Como seria o caso do personagem Quirino, meio vagabundo, meio cafetão, às vezes travestido de sindicalista.  Preso em flagrante numa operação em que transportava armas clandestinas, em seu interrogatório, desabafa aos inquisidores:  “Nunca acreditei na espécie. É o homem que não presta. Ideologia nenhuma vai mudar isso. Seria preciso começar tudo de novo”.

            Para completar, poderíamos ainda citar suas filosóficas reflexões de delatar em relação ao amigo delatado: “(…) o velho tinha um passado de revolucionário, mas, agora, com mais de sessenta anos, não queria saber de mais nada — nem podia. Era bicheiro, contraventor, explorava a esperança do povo — que fim mais triste poderia ter um revolucionário? Para Quirino, já bastava a pena de vê-lo torturado por sua consciência”.  Reflexões de cunho existencialista como essas  não seriam estranhas ao delatado,  o velho Marambaia,  pensador que, nas horas vagas, é dado a anotações e discursos qu e deixaria para a posteridade. Mas não para o oportunista Quirino, homem prático e rústico, boa vida, preocupado apenas com a sobrevivência imediata.

                 Fechado o livro, o sentimento primeiro que nos vem é de alívio: não teremos mais qualquer responsabilidade sobre os caminhos e descaminhos dessa gente desamparada.  Mas logo, como um remorso, nos bate a frustração: não poderemos mais acompanhar o velho João de Angola a se arrastar pelas ruas do Paquetá, carregando sua sacola cheia de esculturas entalhadas em madeira; não mais poderemos conferir a aparição da bela prostituta Sula a exibir sua lascívia e inocência entre homens famélicos e frustrados;  não mais ouviremos  as predições do  velho Marambaia,  visionário anarqu ista que já visitou portos em Stalingrado, na Rússia, ou em Hamburgo, na Alemanha, e agora se esconde num canto do Estrela da Manhã, apontando para o jogo do bicho;  Peremateu, o  mágico argentino, alquimista e charlatão, que, para seduzir mocinhas indefesas e trapacear homens poderosos, desfia toda a sua gama de astúcia; Plínio, o eterno vagabundo — uma espécie de Carlitos patropi — e sua companheira Rosa, a mudinha angustiada que suspira pelo filho perdido para o mar; os três moleques — Pingola, Cariri e Gabriel — que, enquanto jogam porrinha na praça, tramam o assalto ao bazar da esquina; Teodorico, o velho profeta desvairado que carrega sempre um caixote debaixo do braço e, encontrando o primeiro ajuntamento de trabalhadores, já sobe no caixote para proferir seu intermináveis discursos…

               Bom, meus amigos: bem ou mal, o recado está dado. Se você quer um livro forte e comovente, por vezes terno, mas por vezes amargo, desses que uma vez lidos nunca mais será esquecido — vá até a livraria mais próxima, adquira ou encomende este romance. Agora, se você quer apenas um ligeiro entretenimento, uma coisa mais doce — e não pode tomar um copo de água com açúcar porque é diabético —, então compre qualquer um desses tons mais ou menos desbotados que andam aí pelas bancas…

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Os Vira-Latas da Madrugada, de Adelto Gonçalves, com prefácio de Marcos Faerman, apresentação de Ademir Demarchi, posfácio de Maria Angélica Guimarães Lopes e ilustrações e capa de Enio Squeff. Taubaté-SP: Associação Cultural Letra Selvagem, 216 págs., 2015, R$  35,00. E-mail: [email protected] Site: www.letraselvagem.com.br

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(*) Wil Prado, jornalista, romancista, contista e crítico literário, é autor do romance Sob as Sombras da Agonia (Lisboa, Chiado Editora, 2016).