Dizem que Raimundo conhecia muito mundo | Raquel Serejo Martins

Raquel Serejo Martins

 

 

Porque a gente que viu pouco mundo,

como viu pouco, também costuma

dar pouco crédito ao mundo que os outros viram.

Fernão Mendes Pinto

 

Mundo mundo vasto mundo

se eu me chamasse Raimundo

seria uma rima, não seria uma solução.

Poema de sete faces (excerto)

Carlos Drummond de Andrade

 

Dizem tanta coisa.

Raimundo nasceu em Cuba, num dia amarelo de Primavera, na casa que seu pai herdou de seu avô, na Rua Álvaro de Castelões.

Se lhe perguntarem quem foi ou o que fez o referido Álvaro de Castelões para dar nome à rua como o candeeiro do Vasco Santana dava luz ao mundo, nada sabe dizer sobre assunto, que para si o único cubense (não por ter nascido em Cuba mas por ter morrido em Cuba) digno de nota: o jornalista, lavrador e escritor Fialho de Almeida, porque escreveu Os Gatos, dos tantos livros que leu um dos seus preferidos, e porque o escritor se mostrava capaz de uma prosa tão felina como a das vizinhas da rua, quando ao fim de tarde ao postigo.

Raimundo nasceu em Cuba, num dia amarelo de Primavera, num tempo em que a vila era mais fechada do que a cubana isola, então sob a ditadura de Fulgencio Batista e onde debaixo dos chaparros e dos baixos telhados das casas nasciam, à data, mais comunistas, pelo que a vila deveria ser sujeita aos mesmos cuidados e mordomias fornecidos à homónima e embargada ilha do outro lado do Atlântico.

Nasceu em Cuba e fez a escola primária em Cuba, a quarta classe em quatro anos, para mais com distinção, o que é muito fazer e fez de Raimundo o primeiro elemento da família Balão a saber ler, escrever e contar, ao caso letras e números, pois no que a números respeitava, quer os pais, quer os avós, não sabe se contando pelos dedos das mãos, se pelas batidas do coração, moedas, cabras, ovos de galinha, dias da semana, torrões de açúcar, alqueires de grão, quilos de farinha, litros de azeite, tudo coisas de fazer acelerar o coração, mesmo se pouco havia para contar, nunca se enganavam, nem se deixaram enganar. Já a contar os anos que enrugavam as carnes, encolhiam os corpos, amareleciam os dentes, entupiam os ouvidos e embaciavam os olhos, enganavam-se com frequência, ou apenas inocência.

Depois da escola primária (para desgosto regular do mestre-escola e irregular do prior da paróquia, que por ser tão bom de cabeça tanto o tentava com celestiais benesses que obviamente não incluíam virgens, como o ameaçava com pragas infernais que em regra não incluíam insectos, na vã tentativa de o enfiar no seminário em Évora) Raimundo foi estagiar, como hoje se diz ou como diriam os netos se os tivesse, na mercearia do centro da vila, onde, por quase tudo ser de venda a granel, as batatas, a farinha, o grão, o açúcar, o azeite, o petróleo, a aguardente, o tabaco, as velas e até os fósforos, sob orientação do senhor Macieira, um cristão-novo muito velho e amargo como uma maçã reineta, dono, gerente e até à data único funcionário do estabelecimento comercial, foi iniciado e aprendeu, mais uma vez com distinção, o domínio da arte de embustear balanças e outros objectos de peso e medida, mantendo, apesar de mal pesar, a balança como roleta de casino, constantemente coxa a favor da casa, a clientela em total estado de satisfação.

Assim, a entrar às sete e a sair às cinco, de Segunda a Sábado, passou o tempo suficiente para crescer três palmos, alargar um palmo, ter barba na cara para desfazer a cada matina, perder um canino, ganhar quatro molares, perder a castidade, perder de propósito, pagou para perder, perder a mãe, o que é tanto perder, a família Balão reduzida ao pai, ao tio solteiro e ao avô, também viúvo, apresentar-se em Évora para inspecção e consequente cumprimento do serviço militar obrigatório.

Assim, em tempo de guerra, deixou Raimundo de ser merceeiro para ser soldado.

O soldado n.º 976 do Regimento de Infantaria de Évora.

Na noite antes de entrar na carreira para Évora, o pai, que sabia o que era a guerra, em jeito de despedida, juntou a família em casa e, quatro homens sentados a uma mesa quadrada, passaram a noite quase sem palavras, as imprescindíveis e práticas, porque todos donos de um medo quase igual, no tamanho, no cheiro, no sabor, amargo só, sem pitada de sal, que a homens feitos não lhes é dado chorar.

Raimundo, a exemplo do pai, do tio e do avô, também não chorou, talvez fosse também um homem feito, mas percebeu no olhar do pai o mesmo desgosto, a mesma impotência, os mesmos olhos do peixe na banca da peixeira no dia do funeral da mãe, e também não chorou quando sobre a mesa os três homens deixaram, como se esquecidas, as últimas poupanças, um tão pouco que era tanto, que não era nada.

Assim, quase sem nada, a roupa do corpo, o seu melhor fato de fazenda, já curto nas pernas e nos braços, uma trouxa com merenda, seis pares de meias, quatro camisas e um frasco de litro com mel de rosmaninho oferta do merceeiro, entrou na carreira ou, nestes preparos começou a conhecer o chão do mundo.

Durante a instrução percebeu que não era difícil ser soldado.

Tinha corpo, pés, pernas, braços e mãos e olhos, e alegria suficiente dentro do corpo para se manter à superfície da dor, a respirar e às vezes sorrir, mesmo se irónico ou cínico, nos lábios um sorriso, e um sorriso é um sorriso.

Na tropa o soldado n.º 976 fez um amigo. O seu primeiro amigo.

Um amigo fácil de fazer, compartiam beliche pelo que a partilha de confidências era inevitável e nada fizeram para o evitar, pois as pessoas precisam de se sentir pessoas e não apenas números.

Feita a tropa num ápice, era suposto fazer a guerra, o batalhão foi enviado para Lisboa onde, em Alcântara, embarcaria para Nova Lisboa.

Todavia, antes de embarcarem, deram aos mancebos uma noite à solta na cidade ou não mais do que no Cais do Sodré.

Raimundo passou a noite com uma puta que tinha idade para ser sua mãe e, serviço feito, deslumbrado e feliz acabou a noite ou começou o dia a pedir-lhe a mão (queria o corpo todo e em especial a boca) em matrimónio, joelho esquerdo no chão, mão na mão, olhos em genuína súplica.

Ela comovida, a balançar, a embalar o corpo junto ao seu, com os dedos a pentear-lhe, a alinhar-lhe os caracóis numa risca ao lado imperfeita, imaginária (não havia caracóis, que o cabelo cortado à escovinha), enquanto ele de nariz enfiado no seu ventre, a sentir como era macia a seda da China do roupão, a sentir o cheiro do sexo acabado de fazer.

Um sexo quase amor.

Casa comigo.

Amanhecia.

Ela, nome de baptismo: Maria da Conceição, nome de guerra: Marlene, como depois a Marlene do Godinho ou o Necas que julgou que era cantora, sabendo o quão efémeras são as dádivas da noite, o que faz para ganhar a vida, que tem idade para ser sua mãe, e que em breve deixará de ser Marlene, olhou para ele como se para o filho que nunca teve, podia ter tido quatro, fez quatro desmanchos, o último secou-lhe o ventre, e respondeu com uma condição.

Se como dizes me tens amor, promete-me uma coisa.

Prometo todas as coisas. – Respondeu sincero, afoito e ávido na certeza de um sim.

Promete-me que hoje não embarcas para África.

Promete-me que não te deixas levar para a guerra.

No cais das despedidas, dizem que os cais são saudades feitas de pedra, beijos de noivas, de mães, avós e madrinhas, abraços de pais, e lágrimas de todos os tipos menos do tipo de cortar cebolas, evidentes, tímidas e dissimuladas, volteavam como gaivotas (e nada assim que em rigor, o cais deserto, os rapazes da província e um ou outro tio da cidade como se fosse um tio da França).

Raimundo no cais como se no fio da navalha, no arame do equilibrista, o pescoço em risco, a promessa feita.

Raimundo sem medo e sem vontade de fazer a guerra, a enfiar-se à socapa num barco pesqueiro, sem intenção de embarcar, não mais do que esconder-se por instantes, certo e seguro que tinha Marlene à espera.

Foi um barco que o levou, mas pareceu que foi um toiro que o matou, Raimundo sem chão, no mar, Marlene em terra, Raimundo clandestino logo descoberto, desce do convés para o porão, como se do céu ao inferno, vendo-se metido em trabalhos, assim começou a descascar batatas, a lavar panelas e pratos e a aprender palavras azuis cheias de arestas que nunca antes tinha ouvido.

Entretanto o tempo passou.

Voou.

Passaram mais de vinte anos, tantos anos, meses, semanas, dias, minutos milhões.

Do que passou pouco se sabe e Raimundo pouco conta.

A vida num sopro, mesmo se sem velas para soprar em dia de aniversário, velas de barcos apenas e saudades de casa.

Até que um dia, há sempre um dia, Raimundo regressou a Cuba quase irreconhecível porque quase ninguém para o reconhecer.

Sem avô, sem pai, o tio solteiro com cataratas e meia dúzia de colegas do tempo de escola, os quais foi identificando aos poucos não pelos corpos ou pelos nomes mas pelas vozes, pelas histórias e pelas alcunhas, o Pisco, o Estaca, o Cinco Coroas, o Pombinho, o Pouca-terra, o Ventoinha, o Varinhas, o Canário e o Camões.

Chegou num dia amarelo de Verão e vento, o dia no fim, o vento sem sabor a sal, suave e morno, cheirava a urze e rosmaninho.

Encontrou a casa desabitada, envelhecida, paredes, janelas e portas, a descascar como se cobra.

As janelas fechadas.

A casa de olhos fechados.

A chave atrás do mesmo vaso no peitoril da janela. O vaso raso de terra e planta nenhuma. O barulho de ferro e ferrugem da chave na fechadura. A porta a estalar, desengonçada, desbotada.

A casa no escuro.

Os seus passos sólidos e seguros pelo chão da casa, da cozinha, da sala, das escadas para o primeiro andar onde os dois quartos, da porta para o quintal onde a figueira, a erva alta e seca a comer a mesa e as quatro cadeiras vazias, e pareceu-lhe ver, sentados à mesa, o pai, o avô e o tio solteiro.

A erva a estalar sob os seus passos, sobre a mesa um gato em sossego indiferente à sua presença, sentou-se à mesa no lugar que se encontrava livre, acendeu um cigarro, olhou para a casa agora de olhos abertos, passou a mão pelo lombo amarelo do gato, o felino esticou o corpo, gostou, pensou chamar-lhe Pardo, pensou no pó que tinha para limpar, pensou que mais um mês e os figos maduros, pensou que era bom estar de volta e, com fome, fome de Cuba e fome de fome, saiu para jantar.

No centro da vila, a mercearia do senhor Macieira era agora uma loja de quinquilharia da China porém, na porta ao lado encontrou o café do senhor Francisco, deu as boas horas às pessoas, aos velhos seguramente reformados, que como estátuas equestres, sem pombos, na companhia de três gatos e um cão, talvez os gatos justifiquem a ausência de pombos, se encontravam sentados nos dois bancos corridos encostados à parede dos dois lados da porta e entrou no café.

Era o mesmo café e não era o mesmo café, o mesmo balcão, as mesmas mesas, nas mesas os mesmos copos de vidro, garrafas de cerveja, pires com azeitonas, pão, queijo, tremoços, as mesmas cadeiras e os mesmos azulejos numa geometria repetida a lembrar flores.

Azulejos?

Uma novidade azul!

Os azulejos limpos, desempoeirados e desengordurados, como o chão, como os vidros das janelas, agora com cortinas de chita porém bordadas, como os vidros dos candeeiros.

Uma novidade azul com cheiro a sabão azul.

E mais novidades, uma televisão (a casa cheia, barulhenta, jogava a selecção, que a dez minutos do fim ganhava por dois a zero), e atrás do balcão, não o senhor Francisco Maurício, que todos tratavam, com ou sem carinho, por Chico Mau-Mau, mas a filha morgada e prematura herdeira do estabelecimento, Francisca Maurício, a quem chamavam de Chica Boa desde que a mesma não estivesse a ouvir.

Francisca que deixou de estudar para assumir a gerência do estabelecimento e com a mãe partilhar a responsabilidade de sustento da família, uma família reduzida a cinco mulheres por adição de três irmãs.

Deixar a escola a princípio foi um alívio.

Da escola só gostava das aulas de português, e nem era bem das aulas de português, porque só de livros de ler, e não muitos.

Leu Sensibilidade e Bom Senso três vezes e Orgulho e Preconceito cinco vezes, os únicos livros que leu até ao The End, leu oito vezes mais livros do que qualquer das pessoas que conhecia, e derivado da literatura, concluindo que a vida devia ser assim vivida, cheia de gente e entre passeios no campo e salões de chá, tentou da taberna do pai fazer um salão de chá.

Assim, comprou uma dúzia de bules e três dúzias de chávenas, em louça de Castelo Branco, pintada a azul sobre o branco, em evidente harmonia com os azulejos, era suposto insinuarem-se como porcelana inglesa, e empenhada no projecto à custa de pulso firme e olhares arregalados, conseguiu a proeza de manter a clientela em sentido, que o mesmo é dizer a chávenas de chá (sem cheirinhos alcoólicos e ardentes) e biscoitos, para mais sem blasfemar nem praguejar, é que nem um magano de um cão se ouviu, durante uma semana.

Uma semana inteira!

Lembrava Deus quando criou o mundo.

Porém ao sétimo dia, sem descansar nem dar descanso, um deus militar e militante, aos clientes começou a parecer-lhes demais a brincadeira, mesmo se um deus de olhos verdes, discreto decote, peito perfeito, ancas mais-que-perfeitas, e como aves migratórias, talvez cegonhas, voaram e foram fazer ninho para o café do Zé Lé-Lé, o único concorrente do Chico Mau-Mau, que ao caso tinha coração e vocação de fadista (apesar da falta de voz para o efeito) e o gosto (ou seria um desgosto) de cantar quando ébrio (portanto todos os dias), ou de desencantar, pois de tanto macerar os pavilhões auriculares do auditório afugentava a freguesia, sobrando nas cadeiras apenas os surdos.

Assim, para contrariar as quebras de caixa e afastar o risco de falência o salão de chá regressou à sua condição de café de ville, Francisca substituiu a televisão por um novo aparelho com muitas polegadas e o negócio manteve-se próspero o suficiente para pagar as contas sem aflições nem valhas-me-deus.

Raimundo não conhecia Francisca.

Quando rapaz novo foi para Évora sem mais voltar a Cuba, Francisca não passava de uma criança de colo, separavam-nos quase vinte anos, e foi uma alegria boa encontrar uma mulher tão bonita atrás do balcão.

Porque o café cheio, sem lugares sentados e as paredes forradas de gente, Raimundo dirigiu-se sem mais voltas ao balcão.

Francisca a distribuir imperiais pelas mesas com graça e encanto, Raimundo a perceber que por onde passava os olhos da clientela se desviavam, um não sei quê de girassóis em sincronia, como se em coro, do ecrã da televisão, do relvado, da bola, da baliza, da defesa, do passe impossível, do golo!, para se concentrarem numa Francisca que, de tabuleiro como Leonor de cantarinha, vai formosa e não segura os corações que por si suspiram.

Francisca sentindo-se observada, de imediato localizou e identificou o observador.

Foi a primeira vez que os seus olhares se cruzaram, que cada um percebeu que para o outro existia.

Depois, com o balcão a separá-los, Francisca a perguntar: O que deseja?

Encandeado que estava pelos seus olhos verdes, Raimundo a pensar no que desejava, talvez para começar um beijo, provar-lhe a boca, morder-lhe os lábios, perceber-lhe o peso dos seios.

Raimundo a responder: Uma imperial e um pão com queijo por favor.

E antes de a deixar virar costas, a perguntar o que era feito do dono do café, do Ti Francisco Maurício.

– Faleceu, vai para quatro anos. Era o meu pai. Conhecia-o? – Francisca intrigada, a proceder a inquérito. – O senhor é de Cuba, a quem pertence, como se chama?

E quase num grito, porque a cinco minutos do fim a selecção das Quinas a fazer o dois-a-zero e a assistência na bancada do estabelecimento em estado de euforia, Raimundo a responder RAIMUNDO.

– MUNDO? Que espécie de nome é esse? – Ela a perguntar em alta-voz, porque a assistência também a comemorar a repetição do golo.

– RAI-MUN-DO. – Raimundo a soletrar. – Mas posso ser o teu mundo. – A esclarecer.

Ela não ouviu mais do que o nome e ele foi o seu mundo.

Meu Mundo assim lhe chamava Francisca.

Meu Mar assim lhe chamava Raimundo, porque, dizia, se afogou para não mais desafogar, nos seus olhos verdes.

Um amor que começou torto na boca de toda a gente.

Que ele tinha idade para ser seu pai, que um homem cheio de mundo, que nada se sabia da vida que levou, que seguramente mulheres, que talvez filhos, que os marinheiros são do mar, que lágrimas e mar o mesmo sal, que ela tinha idade para ser sua filha, para mais a rapariga mais bonita de Cuba, que um desperdício de juventude, que quase um pecado só de imaginar os dois corpos juntos.

E foi o seu mundo durante vinte anos, até que o inconcebível foi concebido, o mundo acabou ou o mar secou ou um tumor no peito lhe comeu o corpo e fechou os olhos verdes.

Vinte anos feitos de uma felicidade simples e quotidiana.

As bocas que primeiro maldisseram depois a bendizerem ou a mais não dizerem do que o que os seus olhos viam.

Um com o outro, constantemente amorosos, sem olhos para mais ninguém, pelo que todos os olhos que os viam, mesmo se bem servidos de afecto e arrumados, invejosos, porque um amor tão grande e gordo como as galinhas de todas as vizinhas.

Ao lado de Francisca Raimundo envelheceu vinte anos.

No dia da sua morte envelheceu outros vinte.

Sem Francisca ao lado Raimundo ficava, sentia-se, velho e sem préstimo.

Perdeu a vontade ou já não tinha paciência.

Se fosse mais novo, voltava para o mar, que se o mar provoca muitas tragédias, alivia outras tantas, embala os corpos, permite o sono.

Dormir pode ser um dom.

Fechou-se em casa.

A casa cheia de memórias. A mãe, o pai, o avô, o tio solteiro, FRANCISCA.

Francisca em todos os lugares da casa, mesmo dentro das gavetas dos móveis, porque tudo ao seu jeito, com o seu cheiro, sabão azul e alfazema que secava e guardava em saquinhos de pano feitos pelas suas mãos.

Raimundo a tentar, sem conseguir, fugir do mundo.

Pelo que mais uma vez tiveram as bocas felinas da vila assunto ou reportório, que Raimundo se fechou em casa como num caixão, que nunca mais se tinha visto uma janela aberta, a casa outra vez cega, de olhos fechados, que quem o visitasse o ia encontrar, depois de muito bater à porta e entrar sem ser convidado, à sombra da figueira, na companhia dos três gatos, que o desarranjo do peito lhe tinha subido à cabeça, pois que falava com os gatos mas não falava com gente.

Porém como o mundo dá muitas voltas, sabendo-o assim, sem se saber como, uma tarde amarela de Primavera (Cuba, como Buarque disse de Budapeste, é amarela) entrou-lhe em casa um amigo.

Um amigo que pensava morto, como se a morte pudesse não ser coisa definitiva.

Já não se lembrava que tinha feito este amigo, o seu primeiro amigo, o soldado n.º 988, que a seu contrário foi fazer a guerra.

Apesar de incompleto, faltava-lhe o braço direito, reconheceu-o de imediato.

Ficou para uma semana, seis noites sete dias, como nas viagens ao estrangeiro, e envidou todos os cuidados para o animar.

Contou-lhe da sua situação, da sua solidão, de como as desgraças de uns servem de consolo a outros, da guerra, da comichão que sentia no braço que tinha deixado em África, sem o qual, para desgraça maior, não podia tocar viola.

Tu tocavas viola? – Raimundo a perguntar com surpresa.

Não, nunca toquei, mas agora nem que quisesse podia. – E riam e serviam-se de mais vinho, mais queijo, mais pão.

Foi uma semana boa e breve.

Porém, por mais voltas que dê o mundo coisas há que não mudam nem voltam a ser o que antes foram.

A falta que lhe fazia Francisca não parava de fermentar e crescer, Raimundo triste murchava, definhava, resumia-se a dar cumprimento à rotina dos dias, às voltas do mundo.

Saía para comprar o fundamental para casa, comprar tabaco para o cachimbo, tomar um café, não dispensa o café. Entretanto para manter a casa em ordem, contratou às tardes uma cachopa, passando a mesma a fazer as compras para casa e para o cachimbo e também o café, escuro e denso, como se lhe tivesse adivinhado o gosto, qualidades que lhe garantiram o emprego e desobrigaram Raimundo de sair de casa.

Assim Raimundo no seu mundo.

Ou na sua solidão.

As pessoas falam de solidão.

Raimundo não se sente assim tão só, tem as memórias de Francisca, os gatos, a figueira, as sombras, a casa limpa e arrumada, não muito que os portugueses não apreciam muita ordem, qualquer coisa no fogão para jantar, ou seja, os cuidados da Alice, assim se chama a cachopa, tem às Quintas um livro na volta do correio (em Cuba não há livrarias), ganhou o gosto por ler com a mulher, não depois de ler Orgulho e Preconceito e Sensibilidade e Bom Senso, livros com demasiadas fêmeas, pensou e não disse (tantas as coisas que não disse a Francisca), mas depois de ler Adeus às Armas e Moby Dick, tem conversas sobre literatura com o carteiro, cada vez mais curtas, percebe que está a ficar surdo, um rapaz novo doutor em letras, que porque desempregado se empregou em carteiro e, sem dia certo, uma carta de Lisboa, da capital!, que atiça curiosidades de gato porque do remetente consta apenas a morada, sem nome de homem ou mulher, nome nenhum, ao maior coscuvilheiro da vila, que o mesmo é dizer ao chefe da estação dos correios, tarefa que lhe subtrai horas ao sono de tanto matutar nos factos, que a epístola dá entrada no correio na estação do Restelo, que a letra de velho, mas de velho muito velho, como se de outro século, desenhada de forma barroca e arcaica e em evidente estado de tremor, seria medo, perguntava-se? Medo de quê? E dava mais uma volta ao miolo, como se volta à vila em bicicleta nos tempos em que ele carteiro.

Quando mistério nenhum, cartas de trocar novidades quotidianas, novidades nenhumas, e carinhos entre dois velhos solitários, cartas de espantar a solidão ou apenas o tédio dos dias, em que derivado da explosão de uma granada o remetente obrigado a escrever com a mão esquerda, e o destinatário não tem ouvidos para dar utilidade a um telefone, cartas, todas, a combinar para breve um novo encontro, que os dois sabem nunca vai acontecer, porque cada um como um gato, na sua sombra, no seu canto, no seu mundo, talvez pequeno para tantas memórias, ou não, que ninguém sabe responder sobre o tamanho do mundo.

 

Raquel Serejo Martins